Manhã de sábado em Bauru. Em busca de um barbeiro, levantei-me cedo. Era convidado de um casamento, mas minha barba e meu cabelo pareciam não ter sido informados. Precisava dar um jeito naquilo.
Fui me consultar com a recepção do hotel. Afinal, recepção de hotel em cidade do interior é o órgão indicado para saber de tudo e de todos. A resposta veio de bate pronto:
- Direita, direita, esquerda. Tá lá. Pode ir que tá aberto. Ele acorda cedo.
Segui as instruções e lá estava eu em frente ao Salão do Farias. Uma cortininha talvez doada por algum bordel era a porta do minúsculo estabelecimento.
Numa parede, um espelho sem muita firula. Na outra, uma única prateleira, onde só se via um item: uma garrafa de pinga com o símbolo do São Paulo, de rótulo já amarelado pelo tempo. E nos fundos, um sugestivo quadro falando do “Amigo Traidor”.
“O amigo traidor é aquele que vem, te bajula, te acompanha, mas, no fundo, está de olho nas suas coisas. Está de olho na sua mulher, nos seus bens. E vai fazer de todo para tomar tudo de você. O traidor não avisa quando vai mostrar sua verdadeira face…”
Este manual do fura-olho pendurado na parede me deixou realmente preocupado. Pinga, traição, navalha… Será que não tem outro barbeiro aqui perto, não? – pensei.
Como havia já um cliente sendo atendido, fiz aquela cara de turista errando a quitanda e saí de fininho. Fui andar pelas imediações para ver se achava outro barbeiro.
Doce ilusão. Nenhum outro salão por perto.
Voltei e entrei de novo, cínico, como se fosse a primeira vez. Era o que me restava, afinal. Barba e cabelo por R$ 15. Pelo menos era uma pechincha. Restava saber se minha orelha ficaria intacta.

Farias começou o papo logo que me acomodei na cadeira – por sinal, a única do salão também. De cara perguntou se eu cortava o cabelo em algum “salão unissex”. Achei melhor não perguntar o por quê. Desconversei perguntando do tempo. Todo barbeiro tem vocação para meteorologista.
Logo ele já sabia que o santista aqui trabalha em São Paulo.
- “Ah, a capital. Tive um Salão por quinze anos, em Santo Amaro. Mas aí a mulher deu problema e voltei pro interior”.
Será que o quadro do “amigo traidor” tinha algo a ver com aquilo? Provavelmente. Mas perguntar estava fora de cogitação.
O cabelo ficou pronto.
Aprovei, apesar do comentário do salão unissex.
Confiante, Farias começou a preparar a navalha para a segunda parte do serviço. Foi quando um matuto entrou esbaforido no Salão. Logo que passou pela cortininha de bordel, já desembestou a falar:
- Farias, sabe o mendigo ali da praça, que fica em frente a casa do Maninho, do lado da igreja? Aquele aleijado?”
Bom, como uma descrição dessas, nem precisava perguntar, né? Mas Farias, frio, respondeu seco:
- Sei. O que tem ele?
- Ah, então. É que ele tá lá né, o cabelo dele tá bem grande… Daí… daí… daí eu queria trazer ele aqui prá você dar uma cortada… Mas como ele não tá querendo vir… daí… daí… eu queria saber se você não podia ir lá…
Farias lançou um olhar de lutador de Vale-Tudo. Temi pelo pior.
- M-M-Mas eu pago… eu pago, viu Farias… Mas eu queria que você fosse lá… o cabelo dele tá grande…
Achei bom ele ter dito que pagaria. Farias não tinha cara de que curtia uma benemerência e achei que este era o motivo dele estar bufando enquanto ouvia o cidadão. Mas errei. O motivo era outro. Puro business:
- O Nino não tá mais cortando o cabelo dele, não?

Caraca! O Farias sabia que o Nino cortava o cabelo do mendido aleijado da praça em frente a casa do Maninho do lado da igreja. E claramente não gostou de ser o estepe do concorrente.
O cidadão tremeu na base. Desconcertou-se.
- Errrr… É que… é que… é que o Nino não vai poder hoje, tá com muito serviço…
Eu já podia ver o sangue respingando no espelho. Era a hora do Farias botar prá fora toda sua revolta, o revertério da pinga velha, o ódio do amigo traidor e a inveja do concorrente benemerente… Depois daquilo ele ia matar o cara na navalhada, certeza…
Farias olhou prá cara do elemento. Fez uma longa pausa e ajeitou os bigodes, no ápice do suspense-thriller interiorano.
Para minha supresa, porém, ele resolveu poupá-lo. Ou, ao menos, como um matador frio e calculista, adiou a execução:
- Vem aqui mais tarde. Se der eu vou com você lá e dou um trato no cabelo dele. Você que vai pagar, então?
O matuto nem respondeu. Sebo nas canelas dele. Loção pós-barba no meu rosto. Tudo pronto, pago e resolvido.
- Tá ótimo, seu Farias – agredeci, aliviado, mas ainda suando.
- Quando estiver em Bauru, é só chegar. Nós é simprão, mas limpinho – respondeu-me o barbeiro, já com ares de mito.
Voltei para o hotel com a sensação do dever cumprido e da boa história.
Tão boa que resolvi nem comprar o jornal do dia seguinte, prá procurar alguma manchete tipo “Barbeiro rancoroso mata três na Praça da Igreja”.
Afinal, eu precisava voltar para Santos.
E ia ficar muito chateado em não poder testemunhar a favor do Farias – a navalha mais afiada de Bauru.